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POLÍCIA MILITAR X POLÍCIA CIVIL: A DISPUTA PELA MARCA DO ZORRO Jornal "A Tarde" - Bahia O que acontece entre a polícias Militar e Civil que parecem estar sempre em descompasso? No Carnaval, PMs se queixavam de que prendiam marginais no circuito da festa e entregavam pessoalmente às delegacias, mas, no dia seguinte, reencontravam as mesmas caras novamente pulando atrás do trio. Policiais civis, por seu lado, queixavam-se da grande quantidade de presos que a PM levava para as delegacias, segundo eles, sem a devida investigação e em quantidade muito superior à capacidade das celas. A imprensa já registrou casos em que policiais militares prenderam acusados nas ruas, mas os delegados se recusaram a registrar o flagrante. Essa
falta de entrosamento nas ações e operações policiais foi estudada pelos
tenentes-coronéis da PM Edson Martim Barbosa e Expedito Manoel Barbosa de
Souza, que usaram uma metáfora para o fenômeno chamando-o de “complexo
de Zorro”. Isso mesmo. Trata-se daquele herói televisivo, alter ego do
almofadinha Diego de La Vega, que em cada ação deixa sua inconfundível
marca, um “Z”, para todos saberem quem foi o autor da façanha.
As polícias baianas também competem uma com a outra e costumam deixar a
sua marca, na maioria das vezes chamando a imprensa, para que a população
saiba quando foi uma ou quando foi a outra que prendeu criminosos,
desbaratou quadrilhas ou apreendeu drogas. O trabalho dos
tenentes-coronéis, intitulado “Polícia Estadual e ‘O Complexo de
Zorro’ – A Competição na Atividade Operacional” foi apresentado como
requisito para a conclusão do II Curso de Capacitação Gerencial Avançada,
promovido pela Academia de Polícia Militar e pela Escola de Administração
da UFBA. Os autores relacionam como causas da competitividade operacional o
corporativismo e o individualismo; a hierarquia e a disciplina diferenciada
em atividade comum, o que dificulta o entrosamento entre as organizações;
a divisão territorial não compatível entre as polícias; a existência de
cinco telefones para atender denúncias da comunidade, o que revela a falta
de interação; e a propaganda policial. O
corporativismo é um dos maiores estímulos para essa competição. Embora
existente em todas as profissões, a tendência à defesa dos interesses e
proteção mútua, no caso das polícias, se complica bastante porque o que
está em jogo é a segurança pública. Apesar disso, tanto a Polícia Civil
como a Militar receiam promover grandes alterações nos seus sistemas
corporativos e com isso comprometer o espaço que já possuem. Prevalece a
competição e a necessidade da marca do Zorro para divulgar quem está
ganhando. Uma das infelizes conseqüências dessa luta é a não-racionalização
dos recursos. Para se ter uma idéia, o contribuinte baiano mantém hoje
duas centrais de polícia com rede de rádio distintas, duas academias de
polícia, duas assessorias de comunicação e dois números telefônicos
para a população fazer denúncia.
Nas atividades percebe-se também outro tipo de superposição: a Polícia
Militar realiza levantamentos pelo Serviço Reservado – P2 em área específica
da Polícia Civil e esta promove blitz com o pessoal uniformizado (colete,
gorro, viatura), o que deveria ser feito pela PM. Outra questão
interessante levantada pelos dois tenentes-coronéis diz respeito à falta
de intercâmbio entre serviços realizados por uma das polícias
separadamente, mas que interessam às duas. É o caso do Disque-Drogas, da
Delegacia de Tóxicos e Entorpecentes, e do Alô PM. Expedito de Souza - que
é assessor militar do secretário de Segurança - e Édson Barbosa -
atualmente na reserva – questionam: “Tráfico e uso de drogas são
assuntos que interessam apenas à DTE ou deveriam interessar a toda a polícia?
Os registros de fatos envolvendo exploração sexual de crianças e
adolescentes pelo convênio PM – Centro de Defesa da Criança e do
Adolescente não interessariam também à Polícia Civil, que possui em sua
estrutura uma Divisão de Proteção à Infância e à Adolescência?”
Eles citam ainda a prática de alguns policiais civis e militares de
utilizar a imprensa para divulgar a própria imagem, o que muitas vezes traz
a público a disputa entre as duas instituições. “Será que não
percebem que essa nefasta propaganda amplia a competição na já difícil
convivência operacional?” Mas a marca do Zorro parece interessar mais às
duas polícias do que a reflexão sobre a melhor forma de atuar de forma
entrosada. Outra
questão que termina prejudicando o entrosamento operacional das polícias e
incentivando a competição é a diferença de hierarquia e disciplina entre
elas. “O êxito de uma operação conjunta pode ficar prejudicado pela
falta de unidade de comando”, avaliam os oficiais, citando dois outros
fatores negativos gerados por essas diferenças: o grupismo e o carreirismo.
Eles chamam de grupismo a formação de grupos fechados dentro da organização
que excluem outros companheiros e, em alguns casos, resulta em violência
policial. Já o carreirismo, segundo eles, é a forma de mostrar serviço à
comunidade, visando algo pessoal. Geralmente são serviços especiais feitos
normalmente para um bairro ou cidade, geralmente ao “arrepio da lei”. Há
ainda a questão da divisão territorial, que também acirra a competição
e incentiva a marca do Zorro. Segundo os autores do ensaio, a situação
nesse aspecto é tão grave que não há um único caso onde haja
compatibilidade territorial entre PM e PC. A Secretaria de Planejamento de Ações
Nacionais de Segurança Pública do Ministério da Justiça confirma a situação
em relatório, segundo o qual “uma política de segurança pública bem
concentrada necessitaria integrar as formas de atuação dos dois órgãos
de segurança, principalmente no que se refere aos seus territórios”. A
atual divisão facilita, na opinião dos tenentes-coronéis, a ação
criminosa e provoca uma divergência enorme nos dados estatísticos, de tal
forma que, em 1994, a Polícia Militar divulgou 125 casos de linchamentos em
Salvador, contra 17 registrados pela Polícia Civil. A
Polícia Militar brasileira se organizou enquanto instituição com a vinda
da família real portuguesa para o Rio de Janeiro, em 8 de março de 1808,
quando foi criado o Corpo de Polícia. Ela foi sendo denominada, ao longo da
história, de Corpo Municipal de Permanentes, Regimento Policial, Brigada
Policial e Corpo Provisório de Polícia. Somente em 1912 é criada a Guarda
Civil, que ficaria incumbida de exercer junto à Polícia Militar o
policiamento preventivo da então capital federal. Na Bahia, a Secretaria de
Segurança Pública, instituída em 1935, passou por uma profunda reorganização
durante o Estado Novo, em 37, quando é criado o Departamento de Polícia
Preventiva, que ficou encarregado da vigilância, investigação,
policiamento e instrução de processo, mantendo em seu interior a Guarda
Civil. Em 1966, a reforma administrativa cria o Departamento de Polícia
Judiciária e Administrativa e, em 71, é extinta a Guarda Civil. Em 76, é
reestruturada a Secretaria de Segurança Pública e o departamento
transforma-se em Polícia Civil da Bahia. A Polícia Civil conta hoje com um
“efetivo de quatro mil homens e mulheres na capital e interior do estado,
operacionalmente distribuídos em: três departamentos (Depom, Depin e
Deic), 45 divisões e 23 circunscrições policiais e delegacias municipais.
Já a Polícia Militar tem hoje um efetivo bastante superior, de 25 mil
homens e mulheres em todo o estado, atuando através de dois comandos
intermediários (CPC e CPI), 20 batalhões e 15 companhias independentes. Na opinião dos tenentes-coronéis Expedito de Souza e Édson Barbosa, a Polícia Militar e a Polícia Civil trilham caminhos divergentes no campo da segurança pública, quando deveriam atuar sinergicamente (de forma entrosada). Para eles, a polícia brasileira vive hoje um sistema curioso, que privilegia a dicotomia – civil e militar – para a execução da mesma atividade. “Do que nos consta acerca dessa perniciosa dualidade, apenas dois países, hoje, ainda a mantêm: o Brasil e a Turquia”. Eles citam diversas alternativas viáveis para a integração operacional no policiamento da Bahia: - regulamentação do artigo 144 da Constituição Federal de 1988, que estabelece as atribuições das polícias Militar e Civil; - regulamentação e colocação em atividade do Conselho Estadual de Segurança Pública (Conseg), estabelecido pelo artigo 2º do Regimento da SSP, que não foi implementado também por falta de regulamentação; - regulamentação e equipagem com pessoal e material da Coordenação Integrada de Segurança Pública, ativando-a e propiciando o planejamento e execução de operações conjuntas; - criação de uma comissão composta por membros da PC e da PM para tornar a divisão territorial das polícias mais compatíveis; - criação de uma central de comunicação (PC e PM) na SSP; e -
desestimulação dos subordinados a falarem pela Instituição junto
à imprensa, dinamizando e integrando os trabalhos da Assessoria de Comunicação
da SSP e da PM/5(Comunicação Social da PM). Expedito Manoel Barbosa de Souza é Tenente Coronel da Polícia Militar da Bahia, servindo atualmente como assessor militar da Secretaria de Segurança Pública. |
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