\n'; document.write(barra); } } changePage();
|
|
|
||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
|
|
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Zero Hora de 10/03/02 |
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Brasil é o
novo vilão das drogas JOSÉ
LUÍS COSTA
O
novo mapa do narcotráfico internacional assinala contornos sombrios sobre o
território brasileiro. Estudos
produzidos pelo governo dos Estados Unidos e divulgados nos últimos dias
transformam o país em um dos principais vilões no mundo das drogas. Pelos
relatórios, o Brasil assume a segunda posição em consumo de cocaína no
planeta, figura na lista de nações com maior trânsito de drogas e
revela-se um dos países da América do Sul com maior produção de
entorpecentes. Uma
das explicações para essa ascensão brasileira – a exemplo de outros países
do Terceiro Mundo – é a queda no uso de drogas na Europa e nos EUA.
Documento elaborado pelo ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton
assinalou a queda pela metade no consumo de cocaína em 2000 entre os
norte-americanos, que aspiravam cerca de 500 toneladas ao ano. Na Europa,
onde a estimativa de venda, em 1999, chegou a 300 toneladas da droga, a redução
foi de 30%, segundo o relatório. Os
norte-americanos se vangloriam de sua política intervencionista, com a
eliminação de centros produtores na Colômbia, no Peru e na Bolívia, países
de cultivo e de processamento da cocaína. Aumentaram o controle sobre a
venda de insumos como éter e acetona (componentes usados para o refino da
coca), bloquearam rotas de escoamento e infiltraram na América do Sul
homens da Agência Central de Inteligência (CIA) e do Drug Enforcement
Administration (DEA), a agência antinarcóticos.
Menu A
transfiguração do desastre > Na
Holanda, a moda é usar o GHB, ou líquido X, que desperta intenso
apetite sexual e tem levado a estupros, coma e morte. Jovens
costumam escrever a letra G no corpo para facilitar o atendimento médico,
em caso de overdose. O
surgimento dessas drogas se deu a partir dos anos 80. Boticários de
fundo de quintal da Inglaterra, da Holanda, da Bélgica e da
Alemanha começaram a lançar no mercado paralelo líquidos e
comprimidos à base de anfetaminas (estimulantes do sistema
nervoso). Combinaram alucinógenos com antidepressivos, conquistando
jovens de classe média que estão à procura de energia e buscam
espantar a timidez em danceterias e bares noturnos. É nas chamadas
festas rave, com duração de até 12 horas, que o consumo ganha
maiores proporções. –
A cada duas horas, o pessoal toma um comprimido para ficar ligado o
tempo todo. É uma insanidade – diz um ex-usuário de ecstasy, espécie
de guarda-chuva das drogas sintéticas que abriga uma série de
derivações. O
uso dessas substâncias pode provocar parada respiratória,
desidratação, hipertensão e falência dos rins. Combinadas com álcool,
causam outras complicações. Ações
policiais dão uma noção do perigo que ronda o país. Em 1996, a
Polícia Federal fechou um laboratório em Santa Catarina que
exportava ecstasy. Em 2000, a Polícia Civil de São Paulo prendeu
cinco pessoas em um apartamento do bairro da Mooca, na capital
paulista. No local, transformado em laboratório, havia 10 mil
comprimidos de ecstasy. Um químico espanhol conseguiu fugir. A
proliferação dessas drogas também se deve ao fato da facilidade
de transporte e de armazenagem. Quadrilhas russas, dominicanas e
turcas escondem a droga em cargas aéreas e contratam “mulas”
– em geral dançarinas de clubes noturnos – para fazer viagens
em vôos comerciais. No ano passado, a polícia de Nova York prendeu
dois israelenses com 1 milhão de pílulas de ecstasy, que renderiam
cerca de US$ 40 milhões. Uma
das principais preocupações dos especialistas é a velocidade com
que essas drogas se multiplicam. Com variações de fórmulas
desconhecidas, podem desencadear reações surpreendentes,
dificultando ao médico saber que tratamento aplicar a um drogado em
crise. Algumas também provocam o efeito flash back, um distúrbio
mental que pode ser provocado anos depois do consumo. Outra
questão grave: há um amplo espectro de substâncias não-catalogadas
pelas autoridades como drogas de uso proibido. Assim, quem é
apanhado vendendo esses comprimidos ou frascos pode escapar da
cadeia por falta de provas. –
Gera problemas de atendimento de urgência e de configuração legal
de crime – interpreta o advogado Luiz Matias Flach, ex-presidente
do extinto Conselho Federal de Entorpecentes (Confen) e uma dos
maiores autoridades em drogas do país. DROGAS
ALTERNATIVAS Drogas
sintéticas, produzidos por laboratório clandestinos, que
estão chegando ao Brasil e sendo consumidas por jovens em
bares, danceterias e, principalmente, em festas rave (que
duram até 12 horas): Ecstasy
– Composto à base de anfetaminas, a substância foi
patenteada na Alemanha, em 1914, como inibidor de apetite,
mas logo em seguida foi abandonada pelos pesquisadores.
Estimulante, diminui o cansaço e desinibe. Leva à
euforia e deixa o usuário com grande energia, facilitando
o contato interpessoal. Por isso, ficou conhecida como a
“droga do amor”. Nos anos 50, era usada em interrogatórios
e, durante a II Guerra Mundial, ministrada a soldados
japoneses como a “pílula da coragem”. Pode provocar
desidratação, hipertensão, parada cardíaca e colapso
dos rins. Um comprimido custa entre R$ 30 e R$ 50. Pode
ser comprada pela Internet, e algumas fórmulas são
ensinada em sites “A
droga leva à prisão, ao manicômio ou à morte” Há
dois anos, depois de usar maconha e cocaína, o jovem A., 25 anos,
filho de uma família tradicional de Porto Alegre, experimentou o
ecstasy. Sentia-se cada vez mais feliz, ingerindo até cinco
comprimidos por dia: –
O sonho de todo usuário de drogas é ser um usuário de sucesso,
usar controladamente, mas não existe o usuário social. Os
efeitos do ecstasy levaram A. a bater na porta do inferno. Teve de
vender o carro, perdeu o emprego, passava até três dias dormindo,
perambulou por duas clínicas e ficou sem rumo na vida. –
Se não buscar recuperação, a droga só leva a três finais: à
prisão, ao manicômio ou à morte – conclui. Em
tratamento junto a um grupo de auto-ajuda, o jovem trilha novos
caminhos, longe da “droga do amor” que, na verdade, semeia o ódio.
Na última quinta-feira, A. concedeu esta entrevista a Zero Hora: Zero
Hora – Como você teve acesso ao ecstasy? A.
– Iniciei por meio de amigos. No começo, parecia uma brincadeira
e, no final, acabou ficando bem sério. O ecstasy é uma droga da
noite, muito de festas, de boates e de danceterias. ZH
– Em quantas casas noturnas se encontra ecstasy em Porto Alegre? A.
– São
poucas. De cada 10, apenas uma tem. Mas são sempre as casas de
maior sucesso, com maior afluência de público. As pessoas pensam:
o meu filho está indo para tal festinha com amigos, não tem nada
de mais. Mas, por trás de uma boa fachada, tem muito tráfico. ZH
– É fácil comprar a droga em Porto Alegre? A.
– É acessível. Quem quer usar droga consegue fácil. Tem
diferentes tipos de comprimidos, marcas. Dependendo do tipo, o preço
é diferente. ZH
– Quem é que a vende? A.
– Eles se
consideram comerciantes, mas são traficantes. São pessoas bem
apresentadas, de um nível melhor de quem trafica outros tipos de
drogas. Em geral, são pessoas que também usam drogas e se utilizam
do tráfico para manter o próprio vício. ZH
– De onde vem o ecstasy? A.
– Não
tenho idéia, mas a fórmula se pega na Internet. Acredito que seja
bem fácil fazer. Têm sites que ensinam a fórmula. ZH
– Você consumia ecstasy diariamente? A.
– No início,
era esporádico. Era só naquela festinha, na sexta e no sábado.
Depois, passou a se tornar mais freqüente, passou a ser na quinta,
na sexta e no sábado à noite. Quando eu vi, estava tomando
praticamente todos os dias, à noite. Depois, tomando inclusive de
dia. Tomava um pela manhã, outro depois do almoço, e dois ou três
à noite. ZH
– Quando você tomava ecstasy usava também outras drogas? A.
– Eu já
tinha problemas com drogas. Foi simplesmente mais uma droga que se
juntou. Usava várias drogas juntas. A pessoa que usa tenta rebater
uma com outra. Uma droga acelera, outra deixa a pessoa mais devagar.
Eu queria controlar meus sentimentos e meu humor, acelerando ou
diminuindo o ritmo da minha mente. ZH
– Que sensação diferente provoca o ecstasy em relação a outras
drogas? A.
– Provoca
uma sensação de bem estar. É diferente. Dá sensação de que
tudo está bem, tudo está resolvido. Naquelas horas seguintes ao
comprimido, parece que tu és a pessoa mais feliz do mundo. É uma
falsa animação. Na verdade, todo mundo que está dançando está
num mundo superficial. Parece que todos são amigos, se beijam, mas
depois que passa o efeito, a pessoa se sente sozinha no mundo. ZH
– Você gastava muito dinheiro com drogas? A.
– Eu
gastava tudo o que tinha no uso de drogas. Era a coisa mais
importante para mim. Vendia tudo que fosse fácil de negociar. Eu
ganhava um bom salário, mas meu consumo de drogas era tão premente
que nada bastava. Chegou uma hora que comecei a me endividar em
bancos. Vendi carro, TV por preços baixíssimos e também oferecia
direto ao traficante por troca. Tipo: eu dou o celular e tu me dá
uma quantidade de drogas. Perdi o trabalho, perdi a confiança da
família, perdi contato com amigos. |
|
|||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||||
|
Web designer: Otálio Afonso |