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RELEVANTE, AINDA QUE TRISTE Paulo Brossard
Os 500 anos da descoberta do Brasil foram oficialmente comemorados, segundo
um programa que talvez não fosse o melhor. Ficou aquém do esperado, com
manifestações hostis, não pela imperfeição do plano comemorativo, mas
em relação ao próprio fato da descoberta, cujos pergaminhos deveriam ser
rasgados; ao juízo dos manifestantes, tudo quanto fora feito nos 500 anos
decorridos teria sido uma calamidade, obra de Portugal ou da Igreja. Dava a
impressão de que, tivessem meios, e jogariam ao mar, em viagem de retorno,
tanto o presidente do Brasil, que, diga-se de passagem, não participara da
descoberta, e o presidente de Portugal, que também não estava nas
caravelas cabralinas, e aqui se encontrava como convidado. Enfim, tudo
quanto se fizera desde 1500 era estigmatizado ad aeternum. Não é preciso
gastar palavras para pôr em evidência a irracionalidade infusa no fenômeno,
pois não se apagam cinco séculos de vida de uma nação, nascida a partir
da ora execrada descoberta, embora se pudesse dizer que nesse período
tivessem surgido mais pecadores que santos nas terras de Santa Cruz. De
qualquer sorte, chamou a atenção o primitivismo das manifestações,
alguma coisa que cheirava à idade da pedra. Porém,
não foi apenas nas alturas de Porto Seguro que se verificaram essas
estranhas explosões de primarismo alvar. Aqui também elas ocorreram,
delirantes dos padrões da sociedade gaúcha. Tiveram a marca da violência
e da exacerbação, da insanidade e da vilania. Cenas de selvageria e
estupidez. Um relógio, instalado em lugar público, destinado a marcar a
efeméride, se bem me lembro, foi destruído e queimado, num espetáculo bárbaro,
com a presença e participação de autoridades estaduais aliás,
ironicamente, ligadas à segurança pública. O fato é de ontem e, se está
sendo lembrado, é pela circunstância relevante de que, semana finda, a 1ª
Auditoria da Justiça Militar do Estado, em decisão unânime, condenou dois
oficiais da Brigada Militar, aliás oficiais de alto posto, pela participação
no episódio macabro. Dir-se-á que da decisão cabe recurso, e cabe, mas o
fato de a condenação ter sido unânime e tomada pelo segmento judiciário
ligado à própria corporação, conferem à sentença incontestável importância. Como
é sabido, instituição militar sem hierarquia e disciplina pode ser bando
ou coisa parecida, mas entidade militar não é. Disciplina e hierarquia são
inerentes a qualquer corporação castrense, e houve tempo em que, baseada
na hierarquia precisa, a Brigada Militar foi modelo de disciplina. Ora, a
condenação unânime de dois oficiais de alta patente da Brigada, pelo seu
envolvimento criminoso no grotesco episódio do relógio, não é e nunca
poderá ser modelo de disciplina. Aliás, é tanto mais significativa essa
condenação, unânime, saliente-se, quando ao julgamento compareceram altas
figuras do governo do Estado, de modo a tornar pública sua solidariedade
aos delinqüentes, coisa, de resto, que não era segredo para ninguém. E
desse modo, em pouco tempo, se macula uma das tradições mais cultivadas da
corporação, como se alguma autoridade ou o próprio governo pudesse ter
essa faculdade perniciosa. Por isso, há quem entenda existir um plano no
sentido de desfazer o que havia de bom e bem-feito no setor da segurança. Ainda
mais. Ninguém ignora as promoções ilegais, anuladas pelo Tribunal de
Justiça porque ilegais, praticadas pelo governo em relação a oficiais da
Brigada, lançando a perversão e a desordem no seio da entidade. Terá sido
por acaso ou houve o escopo de deformar a instituição, no sentido de
quebrar o serviço de segurança do Estado? O fato é que, quaisquer que
tivessem sido as intenções, os prejuízos causados à instituição, ao
Estado e à sociedade gaúcha foram impagáveis. Tanto isto é certo que a
segurança pública, na opinião geral, é o setor mais deficiente da
administração local. A ausência da segurança, na cidade e nos campos,
onde cresce o abigeato como praga, vem adubando a violência e a
criminalidade de maneira alarmante, envolvendo menores e até crianças,
entre autores e vítimas, sem excluir a atrocidade mais brutal. Vai se
tornando raro o dia em que isso não acontece e é fartamente noticiado.
Chegou ao insuportável. |
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