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VAMOS
VOLTAR À REALIDADE? Alberto
Afonso Landa Camargo
O recente seqüestro do lotação em
Porto Alegre acabou por demonstrar publicamente o preparo da Brigada Militar
para o trato destas questões. A continuar desta forma, a população gaúcha
pode ficar tranqüila, pois toda vez que alguém for seqüestrado, lá estará
a nossa Polícia Militar agindo com serenidade e competência para levar
tudo a bom termo e sem ferir nem matar ninguém. Esta
constatação, no entanto, não é suficiente para dar tranqüilidade para a
população do Rio Grande do Sul. Isto só seria possível se precisássemos
mais de uma polícia repressiva do que de uma preventiva. Embora convivendo
diariamente com seqüestros e reféns, é claro que a nossa situação é
bem mais tranqüila que a do Rio de Janeiro, visto que, aqui, as
possibilidades de acabarmos fuzilados são bem menores do que lá. Ocorre
que não queremos que haja seqüestros, nem nos transformarmos em reféns
diariamente. Queremos sim, que a polícia tenha capacidade de evitar a sua
ocorrência e que eles não sejam nosso medo permanente. Não só seqüestros,
para os quais a polícia já demonstrou competência repressiva, povoam o
nosso cotidiano, mas outros crimes estão aí a nos assolar a cada minuto do
dia. Os próprios ex-reféns do lotação, satisfeitos com o desfecho do
episódio, manifestaram o seu temor pela possibilidade de outros previsíveis
acontecimentos, significando que o sucesso repressivo não está sendo
suficiente para aplacar a sua preocupação, eis que sempre há a
possibilidade de novos casos que, nem sempre, poderão ter o mesmo desfecho. Está
na hora, pois, de colocarmos os pés no chão e agirmos racionalmente, para
concluirmos que, apesar do sucesso na operação do lotação, a segurança
pública do Estado não melhorou em absolutamente nada. A prevenção e a
ostensividade policial, que devem ser mais presentes, continuam deixando a
desejar. A segurança privada continua a aumentar mais e mais o número de
vigilantes nas ruas pela sempre mais crescente ausência do Estado na proteção
ao cidadão. As grades ainda estão cercando residências. A população
continua à mercê de criminosos sempre mais atuantes no nosso cotidiano,
bem mais, aliás, que a polícia que, paradoxalmente, quase não a
enxergamos e que precisa, esta sim, ser mais eficiente na prevenção ao
crime e na proteção do indivíduo. Os
louros da vitória da repressão a este delito já foram colhidos. Os
cumprimentos e os abraços de afago e os discursos com empolados elogios já
foram ditos. As comemorações e os brindes ao sucesso já foram feitos e
estão, certamente, suficientemente esgotados. É preciso que as autoridades
do governo, em especial as da segurança pública, passem agora a investir
mais e permanentemente na colheita de louros com a prevenção, até para
que não aumentem muito os reféns neste nosso conturbado cotidiano e por
conseguinte, tampouco aumentem as condições para uma tragédia sempre possível
toda vez que houver seqüestros e reféns. O sonho acabou. Precisamos voltar à realidade para nos darmos conta de que continuamos com medo. |
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