Grande, interior de Canela. Chovia fino quando cerca de 10 pessoas desceram da mesma caminhonete para acompanhar o enterro. O sepultamento foi demorado. Os próprios familiares abriram e fecharam a sepultura no chão, no cemitério desprovido de coveiro.

PAVOR EM SÉRIE

Quatro horas depois de iniciar uma seqüência de assaltos no norte gaúcho, os foragidos da Justiça José Ruppenthal, 43 anos, e João Arnaldo da Silva, 34 anos, foram mortos a tiros por policiais militares na noite de 24 de setembro. Às 19h15min, em Condor, os assaltantes atacaram uma farmácia. Às 20h30min, outras duas em Palmeira das Missões. Às 23h30min, ao sair de uma farmácia de Frederico Westphalen, foram baleados por PMs antes de chegar a um Gol roubado em Ijuí. Na ausência de documentos, a polícia enviou fotos a delegacias e presídios da região para identificá-los. João, fugitivo do presídio de Passo Fundo, foi reconhecido pela companheira. José, com base em uma foto fornecida pelo Presídio de Soledade, de onde escapara em 9 de julho.

Uma dor dividida

        Conhecido assaltante em Gravataí, Daniel Apolo Duarte, 22 anos, despertou sentimentos contraditórios em sua família ao ser velado no Cemitério Municipal Central. Quando o corpo chegou à capela A, na noite de 10 de junho, a companheira o abraçou. Revoltada, indagava:

        – Por que ele (a vítima do assalto) atirou? Não precisava te matar.

        Conhecido como “Chico da Paula”, Duarte tinha antecedentes por roubo a pedestre, a residência e a motorista. Estava com prisão preventiva decretada.

        – Ele era bandido mesmo – declarou, abalada, uma das irmãs.

        Cabisbaixo e constrangido, o pai media palavras:

        – Ele aparecia, depois sumia. Esp;Menu

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POLÍCIA E BANDIDOS

Percival Puggina

   O policial suíço é um sujeito que fala no mínimo três idiomas, está habilitado a prestar adequadas informações turísticas, atende a todos com um sorriso gentil, e as balas que carrega consigo saíram de alguma caprichosa confeitaria local. Tenho certeza de que a idéia de transformá-lo em modelo para a atuação de seus colegas brasileiros daria origem a uma divertida comédia, com garantido sucesso de bilheteria; na vida real, contudo, produziu tragédia social e fracasso de público.

   Durante infindáveis quatro anos, as autoridades estaduais lidaram com a criminalidade numa lógica segundo a qual: a) o bandido é produto e vítima de um sistema econômico perverso; b) a Polícia é uma estrutura de repressão a serviço daqueles a quem esse sistema privilegia; c) a insegurança social é expressão menor, mas importante, da desejada luta de classes. Dentro dessa lógica se compreende o que aconteceu no Rio Grande do Sul entre 1999 e 2002: a insegurança serve à causa. E o pretendido estilo suíço, também.

   Sob essa ótica, uma nova política, voltada para a prevenção e a repressão ao crime, precisa ser condenada por opressiva e excessiva. Pipocam então na imprensa curiosas manifestações, buscando, mediante artimanhas verbais, confundir combate à criminalidade com AI-5, legítima defesa do agente da lei com execução do bandido que contra ele dispara, e atuação policial com truculência. Nenhuma expressão de contrariedade perante os mais bárbaros crimes, nenhuma solidariedade às vítimas e nenhum pesar com os policiais mortos. Uma conduta tão incoerente quanto a ideologia com que se perfila.

   Para bem servi-la, lançam um preceito que ninguém explicitou - “bandido bom é bandido morto” - e passam a combatê-lo com indignado furor moral. Ora, quem associa a legítima e necessária ação policial contra o crime à idéia de que “bandido bom é bandido morto” não se surpreenderá com que essa posição (que recusa ao agente da lei, até mesmo, o direito de se defender) seja associada, simetricamente, ao conceito de que “policial bom é policial morto”. Ou não? Mas eu não vou tratar malícia com malícia.
 

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