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Zero Hora de 28/09/01 |
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Delegado admite não
investigar crimes JOSÉ LUÍS COSTA Registrar
furto de um veículo, de um celular ou outros crimes rotineiros tornou-se
formalidade para vítimas que procuram a 17ª Delegacia da Polícia Civil,
uma das mais movimentadas de Porto Alegre e responsável por parte da área
central da Capital. A
17ª DP acumula cerca de 7 mil inquéritos à espera de conclusão e não
investiga a maioria dos crimes, segundo admitiu ontem o delegado Omar
Fernandes, em um desabafo público. A 17ª DP registra 1,5 mil ocorrências mensais e tem 33 servidores – sete na investigação. –
Precisamos de 80 policiais qualificados. Dentro das circunstâncias atuais,
é impossível investigar. De cada 10 crimes registrados, se investiga um a
fundo. Não estou fazendo queixume, é uma constatação. Não é desídia,
é como eu ter de tirar terra do Morro da Cruz com uma colher de chá. Vou
encher cinco baldes por dia e o morro vai continuar igual. A culpa é do
Estado, não é do governo – diz. Conforme
o delegado, para atender ao volume de ocorrências, seria preciso que cada
funcionário solucionasse 12 casos por dia: –
Com uma equipe de seis policiais, é preciso 30 dias para que eles possam
investigar os crimes registrados num dia, trabalhando até a meia-noite. Não
vou ser hipócrita. Não tem como mandar um agente entrevistar um flanelinha
para saber se ele viu alguém pegar um carro. É impraticável. Fernandes
diz que essa situação estimula a impunidade: –
É uma constatação lógica. Questionado
sobre como reagiria se tivesse de procurar a 17ª DP sendo vítima de um
crime, admitiu: –
Com frustração, indignação. Um
dos crimes graves sem solução na área foi registrado em outubro passado,
no edifício Santa Cruz, o mais alto da Capital. A jovem Estefânia Loureiro
Jung, 23 anos, foi assassinada no escritório da empresa de seu pai, no 24º
andar do prédio. Ela foi encontrada pelo irmão, deitada no chão, com um
corte no lado direito do pescoço. O caso está por completar um ano sem que
tenha sido remetido à Justiça. A
17ª DP acumula cerca de 700 cartas precatórias (pedido para ouvir
testemunhas) encaminhadas a ela por delegacias do Interior e de sete
Estados. A penúria instalada na repartição não é novidade. Há três
meses, Jorge Mafra, delegado que antecedeu Fernandes, já havia se queixado
da falta de gente para dar andamento a mais de 6 mil inquéritos. A reclamação
custou o sua transferência à 13ª DP. Outros
delegados ouvidos por Zero Hora confirmam que boa parte dos crimes fica sem
solução. –
A carência de funcionários é grande, e casos de furtos ficam para trás
sem ser investigados – afirma o delegado de um distrito localizado numa
vila populosa e violenta da Capital que prefere omitir seu nome. O
delegado Ajaribe Rocha Pinto, da 1ª Delegacia da Polícia Civil de Gravataí,
enfrenta transtornos por falta de pessoal. Ele ressalta que o problema é
antigo e comum nas delegacias das grandes cidades: –
Em 2001, já registramos cerca de 7 mil ocorrências e remetemos para a
Justiça 2 mil feitos entre inquéritos, termos circunstanciados e
procedimentos envolvendo adolescentes. Há um acúmulo de 5 mil ocorrências,
lógico que nem todas vão gerar inquérito, mas o volume de trabalho é
sobre-humano.
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