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ENTERRO DE BANDIDO
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Novatos silenciados
pelo crime
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Última
acolhida: pais velam Fabrício em casa (Ronaldo Bernardi/ZH)
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–
Esses jovens perdem a vida tão novos! Se todos escutassem a voz da
mãe, não teríamos esses crimes. Se as mães fossem obedecidas,
nada de maldade aconteceria neste mundo.
Pregando
ao lado do corpo do assaltante Fabrício Wietzycoski, o pároco Ivo
José Copi falou sobre mães e filhos numa referência à data em
que o rapaz de 19 anos morreu, 13 de maio, Dia das Mães.
Fabrício
teve o caixão exposto na sala da casa cujas paredes ajudou o pai,
gesseiro, a levantar. O motivo para o velório domiciliar, o amor da
mãe explica:
–
Queria que meu filho viesse uma última vez em casa – diz Amélia
Wietzycoski, 51 anos.
Centenas
de pessoas se revezaram por 15 horas na sala para se despedir do
jovem que ficou em coma por quatro dias e morreu em silêncio,
eternizando uma dúvida no seio da família.
Quem
visitou Fabrício guardado por velas equilibradas em garrafas e a
camiseta do time do bairro aos pés não enxergava um bandido.
Amigos e familiares homenageavam ali o rapaz nascido em Erval Grande
relutante a festas e a ser fotografado. Que ouvia música mas não
dançava. Um jovem que saiu de casa na noite de 9 de maio para ir à
escola e só foi encontrado no hospital pela família, no dia
seguinte, graças a um amigo, informado pelo jornal sobre o assalto
em que a vítima baleou os dois ladrões.
Fabrício
morreu quatro dias depois de ferido. O parceiro dele, no instante do
assalto. Treze horas e meia depois da tentativa de roubo frustrada,
familiares localizaram o corpo do assaltante Leomar de Oliveira, 18
anos, no Departamento Médico Legal.
Na
frente do prédio, pediram um jornal para tentar compreender o que
aconteceu depois que Leomar saíra de casa para ir ao colégio. Com
as mãos trêmulas, um dos irmãos lia a notícia palavra por
palavra.
–
Se a família soubesse de algo, não admitiria que ele fizesse.
Bandido tem de morrer, tem de ser punido, mesmo que seja um familiar
nosso – comentaria um parente, no velório.
Às
9h30min de 11 de maio, o corpo, seguido por cerca de 50 pessoas, foi
levado para a sepultura 15 da linha 19 da quadra B. O pai falou com
orgulho do filho que desde os 12 anos trabalhava numa padaria, que
com o salário comprava roupas e ajudava em casa, que jogava futebol
e não gostava de sair. Ele partiu do Cemitério Municipal Nossa
Senhora da Conceição, em Viamão, carregando uma pergunta:
–
Alguma coisa que eu conte sobre ele poderá mudar essa imagem de
bandido que ficou?
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LAÇOS
NO SUBMARINO
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O
confeiteiro Leomar de Oliveira, 18 anos, brincou de pegar
na frente de casa, na Vila Augusta, em Viamão, na tarde
de 9 de maio. Às 19h, se despediu da mãe e saiu para ir
à escola, onde cursava a 6ª série. A quilômetros dali,
na Vila Paraíso, o auxiliar de gesseiro Fabrício
Wietzycoski, 19 anos, jogou futebol, tomou banho e rumou
para o colégio, onde freqüentava o 2º ano do Ensino Médio.
Uma hora e meia depois, os dois amigos saltaram da vida de
jovens sem antecedentes policiais para o mundo do crime.
Os dois atacaram um advogado e policial civil aposentado
que chegava em casa, no bairro Partenon, na Capital.
Obrigada a passar para o banco de trás, a vítima sacou
seu revólver calibre 38, baleou os dois e foi ferida.
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A liberdade durou
pouco
FÁBIO
SCHAFFNER
Casa Zero Hora/Pelotas
A
Kombi bege 1982 da Funerária Bom Jesus cruzou os portões do Cemitério
Boa Vista, em Pelotas, carregando o corpo do assaltante Júlio César
Melingue Viegas, 21 anos. Por R$ 80, pagos pela prefeitura, o dono
da Bom Jesus, Leonel Godinho, deu a Júlio os mesmos serviços fúnebres
dispensados aos indigentes.
–
Quando é cliente particular, o transporte é na Quantum, 1997. Mas
os casos de carência são na Kombi – explicou.
Dezenas
de amigos e parentes compareceram ao velório, realizado nos 24
metros quadrados da capela 2 do Boa Vista. O irmão mais velho,
Luciano, pagou R$ 35 para o motorista José Carlos Ramalho lotar um
ônibus com 41 vizinhos da Vila Peres e transportá-los por quatro
quilômetros até o velório.
Às
11h, sob o açoite do minuano e uma sensação térmica de 5ºC,
amigos e parentes acompanharam o féretro pelo enlameado terreno do
Cemitério Boa Vista. O cortejo teve fim ao pé do túmulo 94-SI,
emprestado à família por amigos. Na despedida, o silêncio dos
movimentos do coveiro, assentando os 28 tijolos que fecharam a
sepultura, contrastava com choros incontidos e a pregação de um
pastor evangélico.
–
Em nome de Jesus Cristo, te pedimos, ó Deus, venha consolar os corações
neste lugar – suplicou o pastor.
Preso
em flagrante no dia 16 de fevereiro, acusado de tráfico de drogas,
Júlio César viveu 80 dias de cárcere. Saiu de lá para encontrar
a morte, no retorno à delinqüência, três dias depois de solto.
Na
noite de 10 de maio, saiu de casa de bicicleta dizendo à irmã Núbia
que visitaria a namorada. Não retornou.
Às
20h do dia seguinte seu corpo nu cruzava os 150 metros que separam o
posto do Departamento Médico Legal (DML) da Santa Casa de Misericórdia
sobre uma maca enferrujada.
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SURPREENDIDO
NA SAÍDA
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A
liberdade durou pouco mais de 72 horas para Júlio César
Melingue Viegas, 21 anos. Solto do Presídio Regional de
Pelotas, Júlio teve a vida abreviada por um projétil
calibre 38 que lhe rompeu o crânio ao assaltar um
minimercado. Com outro rapaz, Júlio havia furtado uma
moto e invadido o minimercado Novo Mundo, no bairro Três
Vendas. Roubou R$ 148 e, na fuga, foi surpreendido por
disparos vindos do outro lado da rua. Teve tempo de
revidar com quatro tiros. Enquanto o comparsa fugia, teve
a têmpora esquerda perfurada. A polícia investiga a
autoria do crime.
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Quatro horas fora
da cadeia
Às
7h de 29 de julho, um domingo, Rodrigo Lumertz, 23 anos, deixou a
Penitenciária Industrial de Caxias do Sul, onde cumpria pena por
roubo no regime semi-aberto, para visitar os avós. Morreria quatro
horas depois, em um tiroteio no Sacolão Minuano, no Jardim América.
Natural
de Caxias, o rapaz foi sepultado no jazigo da família, em São
Marcos. Pouco mais de 50 pessoas estiveram no velório e no enterro.
Aos
20 anos, uma dona de casa engravidou de um namorado que rejeitou a
paternidade. Sozinha e sem condições financeiras, entregou a criança
aos avós, que moravam numa pequena casa, no bairro Planalto.
Rodrigo nunca soube quem era seu pai.
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SAPUCAIA
CHEGOU A TER "RECANTO DOS BANDIDOS"
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Como
estratégia para coibir a criminalidade em Sapucaia do
Sul, Luiz Francisco Corrêa Barbosa lançou, em 1994,
quando prefeito, o polêmico Recanto dos Bandidos. Seria
uma área do Cemitério Pio XII reservada a criminosos.
– A idéia era intimidar, mostrar que estávamos
dispostos a reagir com firmeza aos ataques. E funcionou,
pois os índices de criminalidade diminuíram – diz
Barbosa.
O ex-prefeito ressalva não ter oficialmente criado o espaço:
– Alguém ouviu minha idéia, foi lá e colocou a placa
no cemitério. O Ministério Público (MP) reagiu contra
mim. Mandei mudar o nome para Recanto dos Bonzinhos.
O MP alegava que familiares de pessoas enterradas no local
poderiam processar a prefeitura por discriminação e
danos morais. O delegado de Sapucaia na época também
reagiu, dizendo que Barbosa estava “atraindo desprestígio
para a cidade com uma coisa ridícula e folclórica”.
O prefeito foi comparado a Odorico Paraguassu, personagem
da novela O Bem Amado que não conseguia inaugurar o cemitério
por falta de defunto. Em Sapucaia, ninguém foi enterrado
no Recanto dos Bandidos, extinto meses depois de criado.
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O confronto final
com a lei
A história
de foragido terminou em tiroteio com PMs na véspera de comemorar 23
anos
ADRIANA IRION
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Foto
Samuel Martins, AJB, Banco de Dados/ZH – 3/05/01
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Com
a faixa “Feliz aniversário. Nós te amamos, Cristiano” presa à
parede ao lado do caixão, o assaltante Cristiano de Oliveira
Torquato foi velado em 15 de junho.
Naquele
dia, carne para churrasco, salada, bebidas, bolo de aniversário e
balões o esperavam em casa, no bairro Sarandi, zona norte de Porto
Alegre.
Um
confronto com a Brigada Militar, na noite anterior, transformou em
velório na capela 4 do cemitério João XXIII o que deveria ser a
comemoração dos 23 anos do rapaz que tinha contas a acertar com o
Estado até 2008, por roubo, e havia duas semanas estava foragido do
Instituto Penal de Mariante.
A
mãe de Cristiano, a doméstica Iolanda de Oliveira Torquato, 55
anos, se preparava para trabalhar quando ouviu no rádio a notícia
do rapaz morto em tiroteio no Jardim Lindóia. Como o jovem estava
ainda sem identificação, a notícia passou quase despercebida por
Iolanda.
Ainda
era manhã daquela sexta-feira quando a companheira e irmãs de
Cristiano ligaram para delegacias e o necrotério em busca do rapaz.
A definição chegou com um telefonema. Um homem – possivelmente
um dos que acompanhavam Cristiano no momento do tiroteio – avisou
que o foragido estava morto.
Numa
visita que recebeu da mãe na prisão, duas semanas antes, ele disse
que não suportava mais
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a cadeia. Envolvido em assaltos desde os 18
anos, Cristiano teve quatros fugas registradas pela Superintendência
dos Serviços Penitenciários (Susepe).
À
família, dizia que queria mudar de vida, trabalhar, criar as três
filhas.
–
Ele era um filho amado, maravilhoso. Envolveu-se no crime, em
assalto a banco, por causa das companhias, gente mais velha. Mas
nunca matou ninguém – diz Iolanda.
Era
uma noite fria aquela em que Cristiano comemoraria 23 anos, e a
faixa na parede, assinada por todos irmãos dele, chamava a atenção
de quem passava pela rua ou participava de velórios em outras
capelas. Na manhã de sábado, dia 16, a chuva era miúda e fria
quando o padre falou por 10 minutos para cerca de 30 pessoas, antes
que o corpo passasse a dividir a sepultura do pai e da avó materna
de Cristiano.
A
faixa de aniversário, feita quando o jovem completou 18 anos, foi
retirada da parede e carregada pela mãe. A carne, a salada e o bolo
de aniversário foram consumidos nos dias seguintes. Os balões
enfeitariam a festa de aniversário de cinco anos de uma das filhas
de Cristiano.
|
A
PERSEGUIÇÃO
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Dois
homens caminhando ao lado de um Logus que trafegava
lentamente, na Avenida Sertório, uma das mais
movimentadas da zona norte de Porto Alegre. A cena chamou
a atenção de PMs do Destacamento Especial do Sarandi, na
noite de 14 de junho. Ao ver a patrulha, conforme a
Brigada Militar, um dos homens correu. O outro, Cristiano
de Oliveira Torquato, 22 anos, embarcou no carro, que
ingressou na Avenida Panamericana. Testemunhas disseram
que o veículo seguia com as portas entreabertas para que
o passageiro atirasse contra os policiais. A perseguição
continuou até a Rua Maria Montessouri, onde um pneu do
Logus foi atingido por um disparo e o carro,
descontrolado, bateu numa árvore. Conforme os PMs,
Cristiano desceu com a arma em punho, caindo morto logo em
seguida. O condutor José Pedro Machado, 39 anos, foragido
do sistema penitenciário, afirmou que Cristiano invadira
o veículo. O terceiro envolvido jamais foi encontrado. O
Logus não tinha ocorrência de furto ou roubo, e a polícia
não localizou o proprietário até hoje.
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ENTERRO DE BANDIDO
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Novatos silenciados
pelo crime
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Última
acolhida: pais velam Fabrício em casa (Ronaldo Bernardi/ZH)
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Esses jovens perdem a vida tão novos! Se todos escutassem a voz da
mãe, não teríamos esses crimes. Se as mães fossem obedecidas,
nada de maldade aconteceria neste mundo.
Pregando
ao lado do corpo do assaltante Fabrício Wietzycoski, o pároco Ivo
José Copi falou sobre mães e filhos numa referência à data em
que o rapaz de 19 anos morreu, 13 de maio, Dia das Mães.
Fabrício
teve o caixão exposto na sala da casa cujas paredes ajudou o pai,
gesseiro, a levantar. O motivo para o velório domiciliar, o amor da
mãe explica:
–
Queria que meu filho viesse uma última vez em casa – diz Amélia
Wietzycoski, 51 anos.
Centenas
de pessoas se revezaram por 15 horas na sala para se despedir do
jovem que ficou em coma por quatro dias e morreu em silêncio,
eternizando uma dúvida no seio da família.
Quem
visitou Fabrício guardado por velas equilibradas em garrafas e a
camiseta do time do bairro aos pés não enxergava um bandido.
Amigos e familiares homenageavam ali o rapaz nascido em Erval Grande
relutante a festas e a ser fotografado. Que ouvia música mas não
dançava. Um jovem que saiu de casa na noite de 9 de maio para ir à
escola e só foi encontrado no hospital pela família, no dia
seguinte, graças a um amigo, informado pelo jornal sobre o assalto
em que a vítima baleou os dois ladrões.
Fabrício
morreu quatro dias depois de ferido. O parceiro dele, ndidos mostra o longo e humilhante
caminho de familiares para encontrar o morto, identificá-lo no
necrotério, obter liberação e dar explicações à polícia e a
conhecidos. Há casos em que a face criminosa só se revela no ponto
final da vida. É uma confirmação dolorosa, normalmente difundida
pelos noticiários. Há situações ainda mais surpreendentes. Como
a do assaltante José Ruppenthal, 43 anos, ironicamente
“ressuscitado” para sua família ao morrer. Havia 16 anos, ao
ser preso por roubo e latrocínio, ele perdera contato com os
parentes, moradores de Canela.
Eles
voltaram a ouvir algo sobre o sumido pelas ondas de uma emissora de
rádio da cidade serrana: “Familiares de José Ruppenthal devem
entrar em contato com a Delegacia de Polícia”. Tamanho o
distanciamento, um irmão esteve no necrotério da Capital para
reconhecer o cadáver, na noite do último 27 de setembro e se
confundiu. Levou para ser velado em Canela o de um jovem de 20 anos.
Quando
abriram o caixão, já na Serra, outros familiares descobriram o
erro. O corpo do rapaz, vestido com a roupa destinada a José, foi
trazido de volta a Porto Alegre. No verdadeiro José, a roupa não
serviu e apenas foi colocada sobre o corpo, inchado depois de três
dias insepulto.
Carregado
em um carro funerário, José retornou a sua cidade às 3h de 28 de
setembro, sexta-feira. Às 7h, quem olhava para o galpão da associação
do bairro Bom Jesus teria dificuldade de perceber o velório
realizado lá dentro. Com a porta e as janelas fechadas, silencioso
e com luz fraca, o chalé abrigava três pessoas no começo da manhã.
–
Perdemos o contato com ele depois que foi transferido do presídio
de Canela para Carazinho. Não tínhamos condições de viajar.
Nossa mãe foi vê-lo uma vez. Depois que ela morreu, não tivemos
mais notícias – explicou a irmã costureira.
Como
e por que o rapaz que trabalhava em reflorestamento foi parar na
cadeia ainda é um assunto obscuro para os irmãos:
–
Parece que ele tinha matado alguém.
A
13 quilômetros do local do velório, às 9h, o corpo chegou ao
cemitério de Banhado Grande, interior de Canela. Chovia fino quando
cerca de 10 pessoas desceram da mesma caminhonete para acompanhar o
enterro. O sepultamento foi demorado. Os próprios familiares
abriram e fecharam a sepultura no chão, no cemitério desprovido de
coveiro.
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PAVOR
EM SÉRIE
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Quatro
horas depois de iniciar uma seqüência de assaltos no
norte gaúcho, os foragidos da Justiça José Ruppenthal,
43 anos, e João Arnaldo da Silva, 34 anos, foram mortos a
tiros por policiais militares na noite de 24 de setembro.
Às 19h15min, em Condor, os assaltantes atacaram uma farmácia.
Às 20h30min, outras duas em Palmeira das Missões. Às
23h30min, ao sair de uma farmácia de Frederico
Westphalen, foram baleados por PMs antes de chegar a um
Gol roubado em Ijuí. Na ausência de documentos, a polícia
enviou fotos a delegacias e presídios da região para
identificá-los. João, fugitivo do presídio de Passo
Fundo, foi reconhecido pela companheira. José, com base
em uma foto fornecida pelo Presídio de Soledade, de onde
escapara em 9 de julho.
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Uma dor dividida
Conhecido
assaltante em Gravataí, Daniel Apolo Duarte, 22 anos, despertou
sentimentos contraditórios em sua família ao ser velado no Cemitério
Municipal Central. Quando o corpo chegou à capela A, na noite de 10
de junho, a companheira o abraçou. Revoltada, indagava:
–
Por que ele (a vítima do assalto) atirou? Não precisava te matar.
Conhecido
como “Chico da Paula”, Duarte tinha antecedentes por roubo a
pedestre, a residência e a motorista. Estava com prisão preventiva
decretada.
–
Ele era bandido mesmo – declarou, abalada, uma das irmãs.
Cabisbaixo
e constrangido, o pai media palavras:
–
Ele aparecia, depois sumia. Eu nunca sabia o que ele estava fazendo.
No
dia do aniversário, Duarte esteve na casa da família. Ganhou da
irmã Patrícia a corrente com um pingente em forma de dólar que,
na noite do crime, brilharia no pescoço do corpo caído às margens
da BR-290.
A
mãe preparou a mesa numa terça-feira para celebrar o aniversário
do filho desgarrado, mas ele partiu sem jantar. Reapareceria na
sexta-feira seguinte para chamar a irmã Patrícia e preparar o
plano do assalto que o levaria à morte.
Muitas
pessoas passaram pela capela A, mas, ao final do velório, havia
poucas assinaturas no livro.
–
Foi uma madrugada movimentada, de muito entra-e-sai, tudo gente
desconfiada, que não ficava muito tempo – contou um comerciante.
|
A
HORA DO ALGOZ
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Minutos
depois de dizer à vítima “Vai ser aqui, chegou tua
hora”, era ele próprio, o assaltante Daniel Apolo
Duarte, 22 anos, que corria para fugir da morte, na noite
de 8 de junho.
Baleado por sua vítima, Daniel correu 148 passos,
atravessando a praça de pedágio de Gravataí, onde
deixou um rastro de sangue. Tentou pular uma cerca. Caído
na grama, debateu-se, mordeu as mãos de um socorrista e
balbuciou:
– Me mata de uma vez.
E morreu, apesar do socorro.
Assim foi o desfecho do assalto executado por Daniel com a
irmã Maria Patrícia Duarte, 29 anos. Os dois abordaram
um militar da reserva de 48 anos, na zona norte da
Capital. Colocaram-no no banco traseiro de sua caminhonete
S-10 na mira de uma pistola empunhada por Patrícia. Ela
se distraiu, o militar segurou a arma, sacou uma pistola e
atirou quatro vezes contra a mulher e cinco vezes contra
ele. Patrícia sofreu perfuração do intestino e do esôfago
e laceração no pescoço. Recolhida à Penitenciária
Madre Pelletier, aguarda julgamento.
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Vidas que o crime
abortou
ADRIANA IRION
Zero
Hora acompanhou o desfecho da vida de adolescentes que tiveram pelo
menos uma coisa em comum. Suas vidas foram ceifadas muito cedo,
antes de chegarem à maioridade, por envolvimento com o crime. Nesta
reportagem, ZH encerra uma série iniciada no domingo e que retratou
o enterro de 14 bandidos mortos em ação. Em todos os casos, uma
mistura de constrangimento e dor marcou a despedida de familiares em
ritual maldito.
–
Será que Deus está com um cara desses? – pergunta um funcionário
do cemitério que observa a sepultura de Anderson Valdir dos Santos
Oliveira.
A
dúvida inspira-se na inscrição “Deus seja Louvado”,
improvisada no cimento ainda molhado da sepultura do garoto de 13
anos que empunhou um revólver calibre 38 e atirou dentro de um ônibus
carregado com cerca de 15 pessoas.
A
beira da sepultura do policial Civil Mauro Vieira Rodrigues, 34
anos, passageiro do ônibus morto por Anderson, havia só certezas:
tratava-se de um policial exemplar.
–
Estamos enterrando só um corpo, a alma de um homem bom como ele vai
para outro lugar – afirmou a viúva.
Anderson
e Mauro morreram na noite de 27 de agosto. O policial caiu morto
dentro do ônibus. Anderson desceu do veículo, caminhou até a vila
em que morava e foi socorrido por amigos. Chegou ao hospital sem
vida. Os dois entraram no necrotério, em Porto Alegre, com 10
minutos de diferença.
Na
tarde seguinte, policiais esperavam a liberação de ambos os
corpos. O de Mauro seria levado para uma capela em Sapucaia do Sul,
onde mais de 200 pessoas, entre familiares, amigos e colegas, o
esperavam. O de Anderson estava sob suspeita. Em função da altura
do jovem, a polícia duvidava da idade que constava da identidade.
Mais exames foram feitos antes da liberação do corpo.
O
caixão do policial descia à sepultura sob aplausos e salva de
tiros em São Leopoldo, enquanto o corpo de Anderson recém era
liberado na Capital.
O
corpo do jovem chegou à capela A do cemitério municipal de Esteio
depois das 18h. Era esperado por dezenas de pessoas. Entre elas, a mãe,
cumprindo pena por tráfico de drogas em regime semi-aberto, e
policiais disfarçados que pensavam encontrar no velório mais um
dos participantes do assalto.
Sem
desconfiar da presença dos agentes civis, familiares se incomodaram
com PMs que entravam e saíam do cemitério e com o carro da Brigada
Militar estacionado na esquina. Não perceberam que os PMs foram ao
local homenagear um colega velado na capela vizinha à de Anderson.
E que o carro na esquina não fazia nada além do costumeiro
patrulhamento noturno para coibir assaltos na região.
Na
manhã seguinte, agentes da lei e familiares de Anderson dividiram o
espaço do cemitério. Sob escolta de duas patrulhas da BM, o irmão
de Anderson, internado na Fundação Estadual do Bem Estar do Menor
(Febem) por assalto, permaneceu por uma hora no velório.
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bsp; Com
16 anos, o rapaz costumava aconselhar o irmão a se manter longe do
crime. A mãe, grávida de quatro meses e que passou mal durante o
velório, foi breve:
–
O que tinha de acontecer aconteceu. Não há mais nada a dizer.
Familiares
vieram do Interior, e a capela permaneceu cheia durante as quase 20
horas de velório. Jovens e crianças rodeavam o caixão para
enfeitar o corpo com pequenas flores. Observavam curiosos o aluno da
4ª série que gostava de assistir a desenhos e jogar futebol.
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BRUTALIDADE
NO ÔNIBUS
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Anderson
Valdir dos Santos Oliveira, 13 anos, levantou do banco que
ocupava no ônibus 267 da Central e anunciou um assalto,
na noite de 27 de agosto. Tiros ecoaram no veículo, e o
policial civil Mauro Vieira Rodrigues, 34, e uma comerciária
de 22 anos tombaram feridos. Ferido, Anderson fugiu com a
ajuda da parceira, Carla Oliveira de Souza, 26 anos, mas
morreu, assim como o policial.
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Dois amigos velados
aos 15 anos
FABRÍCIO
CARDOSO
Os
23 passos entre as capelas Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora
Conquistadora, no cemitério da Santa Casa de Caridade de Bagé,
foram percorridos por parentes e amigos de Daniel Soares e de
Rodrigo Amaro dos Santos. A faixa etária predominante denunciava
que se despediam de vidas fugazes, encerradas aos 15 anos.
Onze
rapazes trajando calças de fundilho largo, bonés coloridos e
brincos espalhafatosos carregavam no semblante a revolta. Caminhavam
nervosamente de uma capela à outra, sempre com cigarro entre os
dedos. Senhoras tratavam de dar ombro para as lágrimas das mães,
cujo desconsolo crescia conforme se aproximava a hora do enterro.
A
mãe de Rodrigo, Oleusa Lima Amaro, não pronunciou nenhuma sílaba
sobre a morte do filho. Carregava consigo um sentimento de culpa. Um
mês antes, o menino havia se envolvido num furto a uma loja. Preso,
acabou liberado com a garantia de que não contrariaria a mãe. Foi
morto na noite em que escapuliu da vigilância das duas irmãs
menores para ir a um baile.
A
notícia da morte dos amigos inseparáveis espalhou comoção pela
Vila Ivo Ferronato, onde ainda vive a família de Rodrigo e onde
Daniel passara a infância com a mãe e os sete irmãos.
–
Sei que ele estava fazendo coisa errada, mas não precisava ter
morrido assim – repetia com o choro entrecortado por soluços a mãe
de Daniel, Ana Rosa Soares.
–
Sobram más companhias, e faltam religião e educação na Ferronato
– diagnosticava Maria de Lourdes Cunha, vizinha dos Amaro desde
que Oleusa tinha 13 anos.
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INSEPARÁVEIS
ATÉ NO DELITO
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Restavam
minutos para o primeiro dia da primavera quando Daniel
Soares e Rodrigo Amaro dos Santos, 15 anos, perambulavam
pelos telhados da Avenida Sete de Setembro. O plano de
furtar bens do Bar Kiss foi frustrado com três tiros
disparados por um comerciante.
Ambos os adolescentes perderam os sentidos antes do
arrombamento. Daniel quebrou o pescoço ao cair do terraço,
atingido por um disparo nas costelas. Rodrigo recebeu
atendimento médico, mas sucumbiu às perfurações na
testa e na garganta.
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A morte aos 17 anos
Quando
o filho Marco Antônio Rosa dos Santos, 17 anos, fugiu da Febem, em
fevereiro, a doméstica Helena Santos sabia que seria preso ou
morreria. Três meses depois, Marco estava morto, e o corpo do jovem
pai de dois filhos voltava a ser escoltado por PMs. Oito agentes
desocuparam a capela C do cemitério Jardim da Paz para que o irmão
mais velho de Marco, recolhido ao Presídio Central, se despedisse.
Cerca
de 60 pessoas fizeram o cortejo silencioso. A mãe deixou o cemitério
certa de ter feito o que podia pelo filho mais novo, que estudou até
a 7ª série num colégio particular e fez catequese, mas se
envolveu cedo com as drogas. Quatro dias depois de enterrar Marco,
quando completou 45 anos, Helena remexeu fotos do filho e deu um
recado a outras mães:
–
Quem tiver um filho envolvido em crime e puder fazer algo, que lute,
vá até o fim para tirá-lo dessa vida. Não aceitei ele fugir, mas
sabia que estava vivo. Hoje, só eu sei a dor que estou sentindo.
|
O
CONFRONTO FINAL
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Noite
de sábado, 5 de maio. PMs da Capital desconfiam de quatro
homens em um Monza. Constatam que o carro é roubado e o
perseguem. Conforme a Brigada, os suspeitos reagem a
tiros. A perseguição tem fim dois quilômetros depois,
onde o Monza bate. O tiroteio recomeça. Baleado na cabeça
e no pescoço, Marco Antônio Rosa dos Santos, 17 anos,
morre no local.
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