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Cenas típicas da violência do Rio se incorporam ao cotidiano gaúcho
A chacina de um casal e de uma criança em disputa por ponto de drogas em Porto Alegre fez guarnições ocuparem o Morro da Polícia, rendendo imagens semelhantes às que mancham de sangue o cotidiano de favelas cariocas

HUMBERTO TREZZI

        O ex-governador Alceu Collares (PDT), maçom e adversário do secretário Bisol, veio a público defender a maçonaria – que chama de sociedade “discreta” e não “secreta”.

        – Das tantas bobagens que o Bisol disse, essa é tão grande que cobre todas as outras. A maçonaria só aceita homens livres e de bons costumes. E nunca houve discussão sobre poder judiciário, legislativo ou executivo. Ela discute princípios humanistas. O Bisol perdeu uma oportunidade de ficar calado, pois não conhece nem a história da maçonaria. Foi ela que inspirou a expressão liberdade, igualdade e fraternidade durante a Revolução Francesa.

        Procurados por ZH, o presidente do Tribunal de Justiça e o corregedor-geral não se manifestaram oficialmente sobre o assunto.

O QUE É A MAÇONARIA

• Existem teses sobre a sua origem. Uma das mais aceitas é a de que a sociedade teria se originado no ideário dos Templários (ordem religiosa cristã que combateu durante as Cruzadas). Estes cavaleiros exerceram grande influência na construção civil, durante a Idade Média, de tal forma que associações de pedreiros na Inglaterra e na Alemanha são apontadas como origens dos maçons.

• A maçonaria é uma sociedade parcialmente secreta, cujo objetivo é desenvolver princípios de fraternidade e filantropia. Seus membros só ingressam mediante convite, preservam sua identidade e juram lealdade.

• Em 1717, quatro lojas de pedreiros de Londres organizaram-se numa espécie de federação a que deram o nome de Grande Loja, elegendo um primeiro Grão-Mestre, com autoridade sobre todos os maçons. A expansão das lojas foi tamanha que, em 1742, elas atingiam já o número de 200, só na França. Influíram na Revolução Francesa, à qual emprestaram o lema Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

• No Brasil, a maçonaria influiu em vários episódios da História, incluídos aí a independência do Brasil, a proclamação da República e rebeliões militares ao longo do século 20.

A POLÊMICA

A entrevista dada em um programa da Rádio Independente de Lajeado foi transcrita e distribuída entre maçons gaúchos. Confira os trechos mais polêmicos:

“A maior parte dos desembargadores são maçons. Temos de levantar essas questões. A maior parte dos militares são maçons, a maior parte dos policiais civis são maçons. Quando chega lá dentro, no negócio que interessa aos maçons, sempre há um certo entendimento. Como um juiz pode se entender dessa maneira? Estou colocando uma questão, tá? Juiz não pode... Esta é a minha opinião. Juiz não pode pertencer a uma sociedade secreta, é o fim do mundo!”

Na entrevista, Bisol chega a mencionar a hipotética situação de estar sendo processado por um delegado maçom e depois ser julgado por um desembargador maçom.

“Qual é confiança? Eu tô ralado, não tenho nenhuma segurança, gente! É brincadeira? Ah! Uma bobagem. Estou sendo processado por uma bobagem, né, por um delegado. E corro o risco, por essas estranhas, obscuras e envolventes solidariedades que ninguém enxerga, ninguém vê. E, se isto acontece comigo, o que não pode acontecer com você, cidadão simples? O que não pode acontecer com você?...”

“As declarações do secretário s 1.5pt; PADDING-LEFT: 1.5pt; PADDING-RIGHT: 1.5pt; PADDING-TOP: 1.5pt; WIDTH: 31%" width="31%">

latrocínio

2,6/100 mil

1,7/100 mil

roubos

1.437/100 mil

673/100 mil

lesões

1.478/100 mil

650/100 mil

furtos veículos

497/100 mil

198/100 mil

roubos veículos

220/100 mil

326/100 mil

Fonte: Ministério da Justiça

RS é rota de armas de traficantes do Rio
Polícia tenta aumentar fiscalização nas fronteiras

CARLOS WAGNER

        Uma das batalhas da guerra entre traficantes e policiais pelo domínio do Rio está sendo travada nos 1.003 quilômetros da fronteira gaúcha com o Uruguai.  

        A região, de campos rasgados por estradinhas despoliciadas, é uma das portas de entrada de armas e de munição. A mais recente evidência de que o Estado é rota de armamentos para o Sudeste é o caso do ataque à prefeitura do Rio, ocorrido na segunda-feira da semana passada.

        Das 132 cápsulas deflagradas contra o prédio, seis eram do tipo Wolf, calibre 7.62 com 39 milímetros de comprimento, fabricadas nos Estados Unidos, raras no Rio e compatíveis com cerca de cinco fuzis, dos quais o AK-47 é o mais comum na cidade. A munição levou a polícia a desconfiar do envolvimento do traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, no atentado.  

        A quadrilha de Uê já havia utilizado munição desse tipo em um ataque a uma delegacia. De acordo com as investigações da Polícia Civil, a munição fabricada pela Wolf sai dos Estados Unidos por uma rota de contrabando que passa pela África e Argentina até chegar ao Brasil, segue pelo Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso até o Rio.  

        O contrabando de armas nas fronteiras brasileiras é feito por inúmeras quadrilhas. A maior delas, segundo investigações da Polícia Federal (PF), tem ramificações por vários Estados e é conhecida como Máfia Libanesa (embora não tenha nada a ver com a comunidade libanesa).  

        Os mafiosos estão postados em pontos estratégicos nas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia (em Corumbá e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul), Paraguai e Argentina (em Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná), e com o Uruguai (no Chuí e em Santana do Livramento).  

        Parte das armas é trocada por drogas no mercado internacional, dominado pelo ex-agente da CIA (a agência de inteligência norte-americana) Sergis Soganelian. De origem armênia, ele está preso nos Estados Unidos enquanto seus negócios são tocados pelo filho, Garaiebe.  

        O Rio Grande do Sul serve de passagem para as armas que protegem os traficantes nos morros do Rio. Elas chegam no porto de Montevidéu, no Uruguai, e ingressam no Brasil pelo Sul. Seguem rumo ao Paraguai, à Bolívia e à Colômbia, de onde são distribuídas para traficantes cariocas e outros grupos criminosos na América do Sul – entre eles, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), que têm ligações com Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar.  

        Preso na Penitenciária de Segurança Máxima de Bangu 1, no Rio, o traficante ainda comanda o tráfico de drogas e de armas.  

        Outro receptador de armas que usa o Estado com passagem é a família do fazendeiro gaúcho Erineu Domingos Soligo, o Pingo, estabelecido em Aral Moreira, ao norte de Capitán Bado, município paraguaio dominado por Beira-Mar e maior fornecedor de maconha para o Brasil.  

        Segundo explicou um policial federal, a passagem de armas pelo território gaúcho se intensificou nos últimos tempos devido ao aumento da vigilância nas entradas tradicionais de armas e munição no país – as cidades paranaenses e do Mato Grosso do Sul, as fronteiras paraguaia e boliviana, e a Baía da Guanabara, para onde são trazidas de navios, alguns dos quais depois de uma passagem pelo porto de Montevidéu. As ações das autoridades contra os contrabandistas de armas nas fronteiras gaúchas já estão ocorrendo, apesar de invisíveis.  

        – Porque são de inteligência (rastreamento de quadrilheiros por meio da movimentação de contas bancárias de suspeitos e de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça) – explicou uma fonte da força-tarefa que combate o crime organizado no Rio, sob coordenação do Ministério da Justiça.  

        Sufocar a entrada ilegal de armas no Rio é fundamental, atesta a inspetora Marina Magessi, chefe da operações da Delegacia de Repressão a Entorpecentes da Polícia Civil do Rio.  

        – A figura do comerciante de armas transita na sombra do conflito entre policiais e traficantes. Não lembro de ter visto um deles preso. Acabar com eles seria a mesma coisa que quebrar as pernas do tráfico – diz Marina.

 

 

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