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Revista Veja de 19/03/03

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Ele esteve no Brasil

Policarpo Junior, de Foz do Iguaçu

Reuters

PASSEANDO EM FOZ
Em 1995, Osama bin Laden passou três dias em Foz do Iguaçu e fez reunião numa mesquita

   Quem diria: Osama bin Laden, o terrorista mais procurado do mundo,a ndou perambulando pelo Brasil no ano de 1995. Vindo da Argentina, entrou clandestinamente no país, passou três dias agradáveis em Foz do Iguaçu e reuniu-se com alguns membros da comunidade árabe na mesquita sunita da cidade, um imponente prédio erguido há vinte anos. Na mesquita, Bin Laden contou a seus companheiros de fé as agruras que enfrentou no Afeganistão quando lutava contra a ocupação soviética, conflito que durou dez anos e se encerrou no fim da década de 80. Na época de sua passagem pelo Brasil, Bin Laden ainda não era a estrela mundial do terrorismo, mas recebia as honras de um festejado líder islâmico. Seu encontro com os muçulmanos de Foz do Iguaçu, em nome da posteridade, chegou a ser filmado. O vídeo, preservado até hoje, tem 28 minutos de duração. Quem viu as imagens conta que Osama bin Laden aparece com um discreto cavanhaque, contrastando com a caudalosa barba que o celebrizou depois dos atentados a Washington e Nova York. Está trajando um cafetã branco, a túnica típica da vestimenta árabe, e uma gutra vermelha, o lenço com que os árabes cobrem a cabeça. 
   Na semana passada, um alto funcionário da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) relatou a VEJA alguns detalhes das aventuras brasileiras de Bin Laden, sob a condição de manter-se no anonimato. Outras duas fontes – um superintendente da Polícia Federal e um delegado aposentado da PF, que trabalhou em Foz do Iguaçu – confirmaram a VEJA que o serviço secreto brasileiro esteve investigando as conexões terroristas islâmicas naquela região da tríplice fronteira, entre Brasil, Argentina e Paraguai. A história, detalhada pelo alto funcionário da Abin, mistura ingredientes em que a sorte é sucedida pela inépcia e desemboca num desfecho que só não é engraçado dado o fato de que o terrorista Osama bin Laden, anos depois, viria a mudar a história do século XXI com os terríveis atentados nos Estados Unidos, em setembro de 2001.

   O serviço secreto brasileiro andou às voltas com Bin Laden por mero acidente de percurso. Em 1994, depois do atentado a uma entidade judaica em Buenos Aires que deixou 96 mortos, a CIA pediu ao governo brasileiro que vasculhasse a região de Foz do Iguaçu, na confluência das fronteiras de Brasil, Argentina e Paraguai, em busca de células terroristas. Encarregada da missão, a Secretaria de Assuntos Estratégicos, que mais tarde seria substituída pela Abin, montou a chamada Operação Piloto. Instalou um quartel-general no prédio da Polícia Federal em Foz do Iguaçu. Despachou para a região seis agentes secretos, que se juntaram a dois delegados e outros quatro agentes do centro de inteligência da PF. A operação durou alguns meses, levantou uma série de intrigas e futricas, mas não resultou em nada de concreto. Sua única relevância foi ter levado a Abin a fisgar um novo informante – um egípcio que vivia clandestinamente em Foz do Iguaçu. Usava passaporte falso e era procurado pelas autoridades de seu país devido às suspeitas de ser ligado a um grupo terrorista, o Gama At Al Islamiya. A organização praticara vários atentados no Egito, matando mais de 100 pessoas. Descoberto pelos agentes brasileiros, o egípcio pediu clemência. Não podia voltar para o Egito, sob pena de ser executado. Para ficar no Brasil, concordou em trabalhar como informante. Em troca, passou a receber 2.000 dólares por mês – metade paga pela Abin e a outra desembolsada pela CIA. É informante até hoje.

   Em suas peripécias, o egípcio circulava com desenvoltura pela comunidade árabe de Foz e freqüentava as mesquitas da cidade. Por fé religiosa, esteve no encontro com Bin Laden na mesquita sunita, acreditando tratar-se de um líder espiritual, e não de um terrorista. Afinal, conhecia Osama bin Laden desde os tempos de sua juventude, quando chegaram a estudar juntos. O egípcio ouviu a peroração de Bin Laden sobre seu combate aos soviéticos no Afeganistão e, para guardar a imagem do amigo, obteve o vídeo que registra sua presença na região. Ninguém deu importância ao fato – nem o informante da Abin, que desconhecia as atividades terroristas de Bin Laden, nem a própria Abin, que, à época, era capaz de confundir Bin Laden com o nome de uma estação de esqui austríaca. E assim se passaram três anos, até que as bombas começaram a explodir. Em agosto de 1998, as embaixadas dos Estados Unidos no Quênia e na Tanzânia foram alvo de sangrentos atentados em que morreram mais de 2 1.5pt; PADDING-LEFT: 1.5pt; PADDING-RIGHT: 1.5pt; PADDING-TOP: 1.5pt; WIDTH: 31%" width="31%">

latrocínio

2,6/100 mil

1,7/100 mil

roubos

1.437/100 mil

673/100 mil

lesões

1.478/100 mil

650/100 mil

furtos veículos

497/100 mil

198/100 mil

roubos veículos

220/100 mil

326/100 mil

Fonte: Ministério da Justiça

RS é rota de armas de traficantes do Rio
Polícia tenta aumentar fiscalização nas fronteiras

CARLOS WAGNER

        Uma das batalhas da guerra entre traficantes e policiais pelo domínio do Rio está sendo travada nos 1.003 quilômetros da fronteira gaúcha com o Uruguai.  

        A região, de campos rasgados por estradinhas despoliciadas, é uma das portas de entrada de armas e de munição. A mais recente evidência de que o Estado é rota de armamentos para o Sudeste é o caso do ataque à prefeitura do Rio, ocorrido na segunda-feira da semana passada.

        Das 132 cápsulas deflagradas contra o prédio, seis eram do tipo Wolf, calibre 7.62 com 39 milímetros de comprimento, fabricadas nos Estados Unidos, raras no Rio e compatíveis com cerca de cinco fuzis, dos quais o AK-47 é o mais comum na cidade. A munição levou a polícia a desconfiar do envolvimento do traficante Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, no atentado.  

        A quadrilha de Uê já havia utilizado munição desse tipo em um ataque a uma delegacia. De acordo com as investigações da Polícia Civil, a munição fabricada pela Wolf sai dos Estados Unidos por uma rota de contrabando que passa pela África e Argentina até chegar ao Brasil, segue pelo Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso até o Rio.  

        O contrabando de armas nas fronteiras brasileiras é feito por inúmeras quadrilhas. A maior delas, segundo investigações da Polícia Federal (PF), tem ramificações por vários Estados e é conhecida como Máfia Libanesa (embora não tenha nada a ver com a comunidade libanesa).  

        Os mafiosos estão postados em pontos estratégicos nas fronteiras com o Paraguai e a Bolívia (em Corumbá e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul), Paraguai e Argentina (em Foz do Iguaçu e Guaíra, no Paraná), e com o Uruguai (no Chuí e em Santana do Livramento).  

        Parte das armas é trocada por drogas no mercado internacional, dominado pelo ex-agente da CIA (a agência de inteligência norte-americana) Sergis Soganelian. De origem armênia, ele está preso nos Estados Unidos enquanto seus negócios são tocados pelo filho, Garaiebe.  

     &no secreto brasileiro achou que tinha razões de sobra para não se meter na confusão. Havia um dado prático: Osama bin Laden era um terrorista, sim, mas, àquela altura, apenas um terrorista como tantos outros – e o tino da arapongagem brasileira nem de longe intuiu que poderia estar diante de um peixe graúdo. Havia, também, uma razão de política externa: não interessava ao governo brasileiro envolver-se com questões do terrorismo internacional, o que só reforçaria a surrada suspeita de que a região de Foz do Iguaçu é uma meca para onde os terroristas costumam peregrinar. E, por fim, havia um motivo prosaico, quase cômico: a Abin achou que 10.000 dólares por mês era dinheiro demais para gastar na tentativa de localizar um saudita maluco. Consultado por VEJA sobre a operação, o ministro Jorge Armando Felix, do Gabinete de Segurança Institucional, que coordena os trabalhos da Abin, despachou uma nota em que se lê o seguinte: "Não caberia, sob qualquer pretexto, a detenção de pessoa sem que contra ela pesasse a infração da lei brasileira ou a existência de mandado de prisão expedido por país ou organismo internacional reconhecido pelo Brasil".

   Além dessas razões, a experiência profissional da Abin talvez fosse suficiente para afastar os arapongas brasileiros do caso. Afinal, seria um formidável entretenimento assistir à Abin, uma agência que tem dificuldade de antecipar uma simples invasão de prédio público por integrantes do Movimento dos Sem-Terra, tentando capturar um terrorista árabe – e, ainda por cima, em território estrangeiro. E assim, sem merecer maiores atenções, o plano foi parar na gaveta, onde repousa até hoje, o espião egípcio continuou trabalhando para o serviço secreto brasileiro em Foz do Iguaçu e, três anos depois, Osama bin Laden mandou explodir as torres gêmeas em Nova York. Hoje, sua cabeça vale 27 milhões de dólares – 25 milhões oferecidos pelo FBI e mais 2 milhões da associação americana dos pilotos. É dinheiro suficiente para bancar 450 operações de captura de terroristas, tendo por base o custo que a Abin achou alto demais.

 

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