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AUDITORIA DO ESTADO REVELA FALHAS EM CENTRO DE ATENDIMENTO POLICIAL

De março de 1999 a setembro de 2000, o telefone de emergência da segurança pública, o 190, teve a capacidade de atendimento reduzida pela metade. A conclusão é de um estudo da Contadoria e Auditoria-geral do Estado (Cage), que aponta equívocos no fechamento do Telecentro de Atendimento Integrado (TAI) por 18 meses.
O relatório 014-22/2002 sugere que 111,6 mil pessoas podem ter ficado sem atendimento no período em que o centro ficou desativado e aponta prejuízos ao Estado. Os técnicos concluem que os problemas poderiam ter sido sanados sem interditar o sistema. A Secretaria da Justiça e da Segurança contesta o estudo da Cage

Estudo aponta erro na desativação do TAI
Nos 18 meses em que o serviço de emergência ficou fora do ar, 111,6 mil pessoas podem ter ficado sem atendimento

JOSÉ LUÍS COSTA      

        Um estudo da Contadoria e Auditoria-geral do Estado (Cage) informa que o telefone de emergência da segurança pública, o 190, teve a capacidade reduzida pela metade de março de 1999 a setembro de 2000, em Porto Alegre.

        Isso significa que, durante um ano e meio, 111,6 mil pessoas podem ter ficado sem atendimento em decorrência de uma decisão da Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS).

        O relatório 014-22/2002 da Cage, concluído no mês passado, levou mais de três anos para ficar pronto e vinha sendo mantido em sigilo. O documento aponta equívocos por parte da SJS ao fechar por 18 meses um dos mais avançados sistemas para a segurança pública instalados no país: o Telecentro de Atendimento Integrado (TAI).

        Concebido aos moldes do serviço norte-americano, o TAI – cérebro de um projeto orçado em R$ 20 milhões – centralizou as chamadas de emergência para acelerar o atendimento a pessoas em apuros em Porto Alegre. Pedidos de socorro, em especial para a Polícia Civil, a Brigada Militar e o Corpo de Bombeiros, passaram a ser atendidos por um único número, o 190.

        Assim que a chamada fosse identificada, um rastreamento por satélite e por rádio identificaria a viatura mais próxima do local da ocorrência, que seria acionada para atender a vítima.

        O sistema começou a operar de forma precária no final de dezembro de 1998, atendendo apenas à Capital. Deveria se estender, a partir do mês seguinte, para outros municípios da Região Metropolitana. Mas o TAI apresentou problemas de gerenciamento na implantação – em geral provocados por panes nas linhas telefônicas, não completando as chamadas.

        Por ordem do secretário José Paulo Bisol, a estrutura foi desligada em 28 de fevereiro de 1999. Bisol se baseou em avaliações de uma comissão interna criada para estudar o sistema. Uma das conclusões dessa equipe foi de que, do ponto de vista operacional, o novo sistema era menos eficiente do que o serviço de atendimento até então feito pelo Copom da Brigada Militar, desenvolvido na década de 80.

        Esse parecer é contestado no relatório da Cage, que compara os números de chamadas para o TAI e para o Copom. Segundo o relatório, enquanto o TAI esteve em funcionamento, mesmo com interrupções, atendeu, em média, a 208,4 mil ligações mensais, contra 105 mil ligações mensais recebidas pelo Copom no período de desativação do TAI. Levando-se em conta o fato de que apenas 6% das chamadas são, de fato, pedidos de socorro (segundo estimativa da própria SJS), 6,2 mil pessoas por mês, ou 206 por dia, podem ter ficado sem atendimento com a desativação do sistema.

        O levantamento da Cage, com 27 páginas, conclui que os problemas verificados eram saneáveis sem a necessidade de fechamento da estrutura. A SJS é criticada pela medida e por ter retomado o sistema 18 meses depois sem alterá-lo nem ter dado andamento e conclusão ao projeto.

        O documento responsabiliza a secretaria pelo fato de não terem sido instaladas outras quatro torres de rádio, que ampliariam e melhorariam o serviço.

        O relatório revela que, além da população desprovida de um serviço melhor, a interrupção do sistema causou prejuízos aos cofres do Estado. E os prazos de garantia dos equipamentos, mesmo não sendo usados, correram normalmente.

AS CONCLUSÕES

O que revela o relatório 014-22/2002 da Contadoria e Auditoria-geral do Estado (Cage):

PREJUÍZOS À POPULAÇÃO
• O Telecentro de Atendimento Integrado (TAI), mesmo sofrendo interrupções por problemas de telefonia, recebeu, em média, cerca de 208,4 mil ligações mensais oriundas de Porto Alegre
• Durante os 18 meses em que o TAI ficou fechado, a média mensal de chamadas para o 190 foi de 105 mil. Se for considerado que 6% das chamadas são, de fato, pedidos de socorro – segundo estimativa da Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS) –, 111,6 mil pessoas em 18 meses, ou 206 por dia, podem ter sido prejudicadas pela decisão
• Após a reativação do sistema, sob o nome de Centro Integrado de Operações da Segurança Pública (Ciosp), voltou a elevar a média mensal de atendimento para 271.892 ligações, média diária de 9.063 chamadas
PREJUÍZOS AO ESTADO
• A interrupção causou prejuízos financeiros ao Estado, que investiu, até 1998, mais de R$ 20,6 milhões em obras e em tecnologia no Plano Diretor de Comunicação e Transmissão de Dados da SJS, do qual o TAI é o mais importante. Dos R$ 20,6 milhões, faltava pagar (em abril) R$ 7,4 milhões
• Com a prorrogação do pagamento de parcelas do investimento, cresce o valor do saldo a pagar ao principal fornecedor, a Alcatel, pois o contrato prevê reajuste anual
• Durante a paralisação, continuaram a correr os prazos de garantia dos equipamentos, assim como os prazos de obsolescência
FALHAS DE GERENCIAMENTO
• Desde janeiro de 1999, a SJS tinha conhecimento dos problemas na operacionalização do TAI e das medidas corretivas sugeridas para dar mais eficiência e segurança ao sistema, mas não as adotou
• As falhas decorreram de problemas de gerenciamento na implantação do sistema e não de falhas na concepção do projeto. O Ciosp, sucessor do TAI, começou a funcionar sem alterações significativas
• Os problemas elencados eram de pleno conhecimento da nova equipe de implantação e perfeitamente sanáveis, sendo desnecessária a suspensão do sistema durante um ano e meio
FALHAS OPERACIONAIS
• Problemas operacionais foram relatados com atraso à empresa fornecedora, o que impediu consertos mais rápidos
• Houve falha da equipe de implantação do TAI por não exigir melhor treinamento da Alcatel (principal fornecedora de equipamentos) quando constatou a necessidade de treinar operadores do sistema
• A comissão não providenciou a liberação de áreas para a Alcatel instalar as quatro estações radiobase faltantes (apenas duas foram instaladas desde dezembro de 1998). É do Estado a responsabilidade pelo atraso que causou problemas para a conclusão do sistema
• A comissão de implantação do TAI relatou ocorrer interferência nas comunicações com a rede de rádio de táxis de Porto Alegre. Técnicos da Alcatel garantiram que a interferência não pode ter ocorrido, porque operam em faixas diferentes

A CRONOLOGIA DO CASO

• 29 de março de 1996 – É criado, por decreto, o Plano Diretor de Comunicação e Transmissão de Dados. Dentro do projeto, destaca-se o Telecentro de Atendimento Integrado (TAI), uma das estruturas mais avançadas do país, reunindo sistema de rádio, de monitoramento de veículos policiais por meio de satélite (GPS) e de telefonia para atendimento de chamadas de emergências feita pela população para o número 190. É o embrião da integração das polícias Civil e Militar, além do Corpo de Bombeiros, do Instituto-geral de Perícias (IGP) e da Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe)
• 29 de dezembro de 1998 – Cérebro do projeto no qual foram investidos R$ 20,6 milhões, o TAI inicia suas operações. O sistema apresenta problemas de telefonia nos dois dias seguintes
• 19 de janeiro de 1999 – O secretário José Paulo Bisol determina a criação de uma comissão para avaliar a viabilidade do projeto e do TAI. Em janeiro, o sistema não sofre panes
• 15 de fevereiro de 1999 – O sistema fica fora do ar por cerca de 17 horas por problemas na linha telefônica
• 25 de fevereiro de 1999 – Relatório da comissão aponta, entre os principais problemas, 21 interrupções em 21 dias de fevereiro, cabo de fibra óptica sem proteção contra roedores e sistema de rádio ineficiente. Por fim, conclui que, do ponto de vista operacional, o antigo sistema de atendimento do Copom, desenvolvido na década de 80, está em plano superior ao do TAI
• 28 de fevereiro de 1999 – Bisol acolhe parecer da comissão, e o TAI é fechado. A Contadoria e Auditoria-geral do Estado (Cage) inicia auditoria
• 19 de setembro de 2000 – O sistema é religado sob o nome de Centro Integrado de Operações da Segurança Pública (Ciosp)
• 31 de janeiro de 2001 – É concluído o trabalho de campo da Cage
• 8 de abril de 2002 – A Cage conclui auditoria relatando que os problemas apontados pela comissão eram do conhecimento da equipe e sanáveis, sendo injustificada a suspensão por 18 meses do sistema, o que causou prejuízos de atendimento à população e financeiros ao Estado

Falta de quatro antenas compromete comunicação

        Uma das razões para o sistema de atendimento de emergência não funcionar conforme previsto no projeto original é a falta de quatro estações da radiobase (torres que captam e transmitem sinais) na Região Metropolitana.

        No estudo sobre o sistema, a Contadoria e Auditoria-geral do Estado (Cage) responsabiliza a administração pública pela não-instalação dos equipamentos.

        Desde o final de 1998, o sistema funciona com duas torres em Porto Alegre. Contudo, são insuficientes para cobrir toda a área da Capital, deixando regiões desassistidas – as chamadas áreas de sombra.

        A zona sul de Porto Alegre é a que mais sofre. Em alguns pontos, os rádios das viaturas da Brigada Militar ficam sem comunicação com o Centro Integrado de Operações da Segurança Pública (Ciosp).

        A solução seria a instalação de um torre na região. O local escolhido, há três anos, foi o Morro de São Pedro, no bairro Restinga. Previsto no projeto original, oacesso ao topo chegou a ser ampliado e pavimentado parcialmente, mas a antena e demais peças, já compradas, não foram instaladas, permanecendo sem utilização há quase três anos. No local, há uma antena de telefonia celular.

        Outras três estações de radiobase, também encaixotadas, deveriam ser instaladas em Dois Irmãos, no Vale do Sinos, em Viamão e em outro ponto da Região Metropolitana.

CONTRAPONTO

O que diz o tenente-coronel Martin Luiz Gomes, diretor do Departamento de Relações Institucionais da Secretaria da Justiça e da Segurança (SJS):

Martin defende as ações da SJS e rebate as críticas apontadas no relatório da Contadoria e Auditoria-geral do Estado (Cage). Diz que houve avaliação equivocada em alguns pontos e que outros aspectos importantes deixaram de ser avaliados pelo documento:
“O governo anterior deveria ser questionado, por exemplo, para se saber por que o TAI foi implantado com atraso de três meses, sem respeitar o contrato assinado em 31 de março de 1998, que previa prazo de seis meses”.
Martin justifica as medidas adotadas pela SJS devido a necessidades operacionais que o TAI não contemplava. Ele diz que foi feita uma auditoria que constatou irregularidades e citou graves problemas físicos do prédio, como falta de banheiros, de água e de luz e vazamentos na tubulação. Veja o que o ele diz sobre temas abordados no relatório da Cage:

 

 

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