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Percival Puggina |
| O
policial suíço é um sujeito que fala no mínimo três idiomas, está
habilitado a prestar adequadas informações turísticas, atende a
todos com um sorriso gentil, e as balas que carrega consigo saíram de
alguma caprichosa confeitaria local. Tenho certeza de que a idéia de
transformá-lo em modelo para a atuação de seus colegas brasileiros
daria origem a uma divertida comédia, com garantido sucesso de
bilheteria; na vida real, contudo, produziu tragédia social e
fracasso de público. Durante infindáveis quatro anos, as autoridades estaduais lidaram com a criminalidade numa lógica segundo a qual: a) o bandido é produto e vítima de um sistema econômico perverso; b) a Polícia é uma estrutura de repressão a serviço daqueles a quem esse sistema privilegia; c) a insegurança social é expressão menor, mas importante, da desejada luta de classes. Dentro dessa lógica se compreende o que aconteceu no Rio Grande do Sul entre 1999 e 2002: a insegurança serve à causa. E o pretendido estilo suíço, também. Sob essa ótica, uma nova política, voltada para a prevenção e a repressão ao crime, precisa ser condenada por opressiva e excessiva. Pipocam então na imprensa curiosas manifestações, buscando, mediante artimanhas verbais, confundir combate à criminalidade com AI-5, legítima defesa do agente da lei com execução do bandido que contra ele dispara, e atuação policial com truculência. Nenhuma expressão de contrariedade perante os mais bárbaros crimes, nenhuma solidariedade às vítimas e nenhum pesar com os policiais mortos. Uma conduta tão incoerente quanto a ideologia com que se perfila. Para bem servi-la, lançam um preceito que ninguém explicitou - “bandido bom é bandido morto” - e passam a combatê-lo com indignado furor moral. Ora, quem associa a legítima e necessária ação policial contra o crime à idéia de que “bandido bom é bandido morto” não se surpreenderá com que essa posição (que recusa ao agente da lei, até mesmo, o direito de se defender) seja associada, simetricamente, ao conceito de que “policial bom é policial morto”. Ou não? Mas eu não vou tratar malícia com malícia. |
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Afastado
oficial que evitou invasão MARIELISE
FERREIRA No
confronto, foram feridos quatro manifestantes, entre eles o frei Sérgio
Görgen, aliado do governo estadual e candidato a deputado estadual
pelo PT. O
episódio gerou desconforto político para o Piratini e fez com que
o vice-governador, Miguel Rossetto, e o secretário da Justiça e da
Segurança, José Paulo Bisol, interviessem nas negociações entre
a população e o consórcio Baesa, responsável pela usina. O
secretário chegou na manhã de ontem ao local onde mais de mil
agricultores estão acampados. Sob
sol forte, Bisol e o comandante-geral da BM, coronel Gerson Nunes
Pereira, usaram bonés do Movimento dos Atingidos por Barragens
(MAB), em gesto explícito de apoio aos agricultores. O governo
criticou a BM que está sob seu comando. O tenente-coronel Luiz
Carlos Martins, que liderou as tropas do 10º BPM no confronto, será
submetido a inquérito policial administrativo. O
grupo de cerca de 50 PMs atendia à decisão judicial em garantia da
Baesa. Bisol avaliou o confronto e admitiu que causou “desconforto
político e uma profunda tristeza”, que atribuiu a um excesso do
comando local.
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Governo preserva aliança RODIMAR
OLIVEIRA Originário
do MAB, o deputado estadual Ivar Pavan, líder do governo na Assembléia,
estava visivelmente pressionado. Embora
garanta que não recebeu nenhuma cobrança de seus ex-companheiros
nem exigiu providências do governo do qual faz parte, Pavan diz que
foi um erro o confronto. –
Os movimentos têm autonomia para deliberar sobre suas ações,
enquanto o governo tem obrigação de governar. Não fomos
provocados a fazer cobrança alguma do governo – afirmou Pavan. Disse
não saber o real motivo do conflito. Lamentou que o resultado tenha
sido pessoas feridas. A exemplo do governador Olívio Dutra, o
deputado considerou inaceitáveis as agressões aos integrantes do
MAB, mas afirmou não acreditar que PMs e atingidos por barragens
sejam adversários. Procurou culpar a empresa construtora da obra: –
O adversário real não apareceu na cena do conflito. O
deputado disse que a empresa responsável pela obra “deveria ter
feito um acerto prévio com as populações atingidas antes de
entrar na área”. –
Primeiro deveria ter sido feito um acerto de indenização da população
que mora dentro da área do reservatório, tranqüilizá-la de que
será realocada e, a partir daí, começar os trabalhos da obra. Mas
as empresas esquecem que as pessoas existem. Por conta disso, agora
temos resultados de conflitos desnecessários – avaliou. Sobre
as conseqüências políticas do confronto, com uma possível queda
do apoio dos movimentos sociais à candidatura do governador Olívio
Dutra nas prévias do PT marcadas para o próximo domingo, Pavan
também evitou maiores comentários. –
O apoio ao governador é uma questão muito maior do que um o
incidente no meio do percurso por uma disputa. O movimento sabe que
a ação da BM não foi orientação do governo. Foram ações autônomas
de ambos os lados. Ao
determinar a abertura de inquérito para apurar o episódio, Olívio
procurou afagar o MAB: –
O Movimento dos Atingidos por Barragens é legítimo, e a polícia não
deve agir dessa forma – afirmou o governador ontem pela manhã, em
entrevista coletiva na Federasul. |
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Entrevista:
frei Sérgio Görgen, líder de agricultores Um
dia após enfrentar PMs na Usina Barra Grande, o frei Sérgio Görgen
se disse perplexo. Atuante em movimentos sociais há mais de 20
anos, o ex-diretor do Departamento de Reforma Agrária e candidato a
deputado estadual pelo PT questionou a atuação da Brigada Militar,
comandada por um governo que apóia. No local do confronto, frei Sérgio
concedeu esta entrevista a Zero Hora: Zero
Hora – Como ocorreu o conflito? Frei
Sérgio Görgen
– Os agricultores batiam no portão e conseguiram abrir um dos
lados. Pedi que não entrassem e passei pelo portão justamente para
evitar conflito. Andamos de braços erguidos, chamando o comandante
e pedindo para conversar. Mas não houve resposta. A única voz que
ouvimos foi a dele, mandando atacar. ZH
– O senhor correu? Frei
Sérgio – Não
corri. Voltei a passo, cutucado, empurrado. Levei um tiro de bala de
borracha no braço e um cassetete nas costas. Quando chegamos ao
outro lado do portão, o revide começou. Foram 15 minutos de
batalha campal. Vinham bombas, gás, balas e até pedras. Só
pararam quando peguei o microfone e pedi que se acalmassem. ZH
– O que pensou quando apanhou da BM do governo que apóia? Frei
Sérgio –
Fiquei assustado, mas em nenhum momento pensei que essa atitude
vinha respaldada pelo governo. Atribuo o conflito a um desvio de
comportamento do comando local, uma reação descontrolada que não
acredito, em hipótese alguma, seja por ordem do governo. Deve estar
havendo alguma diferença entre o comando local e o estadual. Se não
houve, acho que é motivo de estudo sociológico destas mudanças
culturais. Sei que a BM precisa cumprir as ordens judiciais. O
problema é a forma como fez. ZH
– Esse conflito estremece a relação dos movimentos sociais com o
governo? Frei
Sérgio –
De forma alguma. Nossa briga é com o consórcio que, sem respeito
algum às populações atingidas, está conduzindo a construção
destas obras. Só espero agora uma atitude firme do governo para
desobstruir imediatamente esta estrada pública e usar de todos os
instrumentos legais de que dispõem para interditar esta obra até
que as famílias que vivem na área de risco sejam indenizadas e
recolocadas. |
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Uma relação de amor e ódio HUMBERTO
TREZZI Nada
estranho para quem conhece o frei, um homem de muitos vaivéns na
política, mas fiel às suas bases. Para onde os ventos do campo
sopram, lá vai Sérgio Görgen – um dos fundadores e ideólogos
do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e do Movimento
dos Pequenos Agricultores (MPA). Com o Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB), essas entidades integram a Via Campesina. Foi
assim quando sentiu, em 1998, que a maioria dos sem-terra
identificava Olívio como o candidato ideal para o governo. Frei Sérgio
e outros líderes sem-terra o apoiaram, o que foi decisivo para sua
vitória na prévia contra Tarso Genro e, posteriormente, contra o
ex-governador Antônio Britto. Recompensado
com o cargo de diretor do Departamento de Reforma Agrária na
Secretaria da Agricultura e Abastecimento, frei Sérgio ficou menos
de dois anos no governo. Desde o começo, cobrou a promessa de
assentar 10 mil famílias em quatro anos. Os primeiros meses foram
de tolerância mútua, com o MST evitando invadir terrenos
governamentais e o governo impedindo ações de força da BM. O
namoro durou até 23 de setembro de 2000, quando PMs retiraram à
força colonos do Incra e da Receita Federal na Capital. Três
agricultores e um PM ficaram feridos. Dois
meses depois, em 7 de dezembro, Görgen deixou o governo. Logo saiu
seu assessor, David Stival (atual presidente estadual do PT). A
demissão de mais integrantes do MST só foi driblada pelo governo
com o anúncio, após a saída do frei, da criação da Secretaria
da Reforma Agrária, ocupada desde então por Antônio Marangon –
também ligado aos sem-terra. A
resposta da Via Campesina à demissão do frei veio em 20 de março
de 2001, quando 600 integrantes do MPA invadiram e acamparam na
secretaria da Agricultura e Abastecimento. Era um recado ao secretário
José Hermeto Hoffmann, que retirara frei Sérgio do governo. Mas
a afinidade ideológica predominou – e o governo tratou de
apaziguar ânimos, preenchendo cargos na Secretaria da Reforma Agrária
com integrantes do MST. A
reaproximação ganhou força em outubro passado, quando o MST
desencadeou uma onda de invasões na Fronteira Oeste. Resistindo aos
apelos dos fazendeiros por repressão imediata, o governador enviou
emissários para negociar desocupações sem conflitos, viajou a
Alegrete e discutiu em tom áspero com os ruralistas, algo que
agradou aos sem-terra. Estava pavimentado o caminho para a
reconciliação. O
próximo passo veio este mês, quando a Via Campesina declarou apoio
a Olívio, em sua disputa com Tarso na prévia para escolher o
candidato do PT ao governo. Inclinado a votar em Tarso, Görgen
(candidato do MPA a deputado estadual) seguiu a orientação de líderes
sem-terra e aderiu à candidatura de Olívio. Resta saber se o tiro
disparado pelos PMs não reabrirá a ferida política entre o
Piratini e o
frei. |
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